sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Terra se mexe o tempo todo

Os blocos rochosos que formam a camada sólida do planeta estão sempre em movimento, causando tremores e a deriva continental.
No romance A Jangada de Pedra, o escritor português José Saramago relata como a península Ibéri¬ca teria se soltado do continente europeu e saído flutuando oceano Atlântico afora. Na obra, de 1986, a imagem da península servia de metáfora à exclusão cultural, política e econômica que Portugal e Es¬panha viviam no processo de unificação da Europa, que avançava a passos largos àquela época. Fisicamente, a península não pode se separar da Europa - ao me¬nos por ora, enquanto tudo faz parte de um imenso bloco de rocha sólida, a placa tectônica que abriga a Europa e a maior parte da Ásia. Mas a idéia de Saramago se apóia em um fato geológico: pedaços de continentes, como a índia, um dia foram ilhas no oceano; outras partes poderão se separar no futuro. Isso porque as placas tectônicas estão em lento e constante movimento, que as une, quebra e trans¬forma. Essa deriva é responsável pela criação dos continentes e de grandes cordilheiras, pelo relevo do fundo dos oceanos e pelos terremotos.
Vários povos vivem o tempo todo o sobressalto dos abalos sísmicos (outro nome para terremotos), às vezes de ma¬neira muito violenta. Em 12 de maio últi¬mo, a província de Sichuan, no sudeste da China, sofreu um dos maiores terremotos de sua história. O tremor, que atingiu 8 pontos na escala Richter, destruiu casas, escolas e edifícios comerciais, soterrando dezenas de milhares de pessoas. Terre¬motos dessa intensidade liberam energia equivalente à de 50 mil bombas atômicas como a que arrasou Nagasaki, no fim da II Guerra Mundial. O tremor de Sichuan foi seguido por diversos abalos secundá¬rios, alguns bastante violentos também, que ainda ameaçavam os habitantes da região, quase dois meses depois do grande desastre, com o deslizamento de terra e o rompimento de represas. Em meados de junho, as autoridades chinesas conta¬bilizavam mais de 70 mil mortos e quase 15 mil desaparecidos.
Sichuan sofre regularmente tremores que vão além dos 7 pontos na escala Richter. E que, diversamente do que acontece com os raios - que se diz que jamais caem duas vezes num mesmo lugar -, os terremotos se repetem re¬gularmente nas bordas das placas tectô¬nicas. E o sudoeste da China fica numa perto das bordas das placas Indiana e Euroasiática. Como essa região, diversas outras - como as do Chile, do México e da Grécia - apresentam, em geral, tremores, alguns muito violentos.

Placas em movimento

Placas tectônicas são gigantescos blocos que integram a camada sólida externa da Terra, ou seja, a litosfera, constituída da crosta mais a parte superior do manto. É como se a parte mais externa do planeta fosse uma casca de ovo quebrada. Tudo parece firme, mas, por baixo das rochas, a camada inferior do manto, apesar de também ser sólida, está sob imensa pressão e a altís¬simas temperaturas. Nessas condições, o material adquire plasticidade e move-se muito lentamente, em correntes de convecção - o sobe-e-desce da matéria, como ocorre na água fervente. Impulsionadas por esse movimento, as placas "navegam". Em alguns pontos, chocam-se (placas con¬vergentes). Em outros, afastam-se, abrindo grandes fendas (placas divergentes). Há pontos do planeta, ainda, em que duas placas deslizam uma do lado da outra, criando as falhas transformantes A pressão entre duas placas acumula grande quantidade de energia que, de tempo em tempo, é liberada na forma de terremoto. A escala Richter, normalmente citada como referência para a intensida¬de de um tremor, define, na realidade, a energia liberada pelo abalo com base na amplitude das ondas sísmicas captadas pelos sismógrafos. E o que se chama mag¬nitude. A escala é logarítmica - ou seja, a cada ponto, a amplitude das ondas varia dez vezes e a energia liberada sobe 31,6 vezes. Assim, enquanto um terremoto de magnitude 5 libera energia equivalente a 32 mil toneladas de dinamite, outro, de magnitude 6, libera o equivalente a l milhão de toneladas de explosivos. É claro que, quanto maior a energia liberada, mais violento será o tremor. No entanto, nem todo terremoto de grande magnitude causa grandes danos. Os efeitos de um abalo sobre determinada região depen¬dem de vários fatores, como o tipo de solo, a profundidade do foco do tremor, a distância a que se está do epicentro (o ponto da superfície exatamente acima do foco subterrâneo de liberação de energia) e a qualidade das construções.

A dança dos continentes

Ainda conhecemos pouco da natureza do interior do planeta. A geofísica e a geologia tiveram seus maiores avanços somente a partir do século XX. A idéia de que os continentes se movem no de¬correr do tempo é antiga. Ainda no sé¬culo XVII, diversos naturalistas notaram que o contorno dos continentes parecia se encaixar, como peças de um imenso quebra cabeça. No século XIX, a des¬coberta de fósseis de animais idênticos em continentes separados por milhares de quilômetros de mar aparentemente só tinha uma de duas explicações: ou os continentes constituíram, centenas de milhões de anos atrás, um único super-continente ou todos os continentes já surgiram na conformação atual e pos¬suiriam pontes naturais entre si.
A primeira hipótese venceu. Em 1912, o meteorologista alemão Alfred Wegener (1880-1930) formalizou a tese mais completa da deriva continental. Wegener afirmou que o super-continente primor¬dial (Pangéia) teria se quebrado em vários blocos menores, que, à deriva, teriam se espalhado pelo globo. Mas não explicou satisfatoriamente as forças físicas envolvidas nessa "navegação às cegas".
Até que, no início da década de 1960, novos avanços das ciências - como a des¬coberta de terrenos recentes no fundo dos oceanos - levaram ao desenvolvimento da teoria da tectônica de placas. A idéia é que não apenas os continentes se movem, mas toda a crosta do planeta - incluindo o fundo dos oceanos - recortada em 12 grandes placas e outras 20, menores, que estão em constante movimento e renova¬ção. Enquanto algumas partes sobem à superfície da Terra, outras mergulham de volta ao manto, através de fendas - tudo impulsionado pelo movimento do manto inferior. Assim, a superfície terrestre está em constante renovação por meio de ma¬terial vindo de dentro da Terra.
Terremotos no Brasil

O avanço da tecnologia - que leva a métodos de detecção e medição cada vez mais apu-rados - continua derrubando mitos. Um deles é aquele que diz que o Brasil está livre de aba-los sísmicos. Nada mais falso. Apesar de estar no centro aparentemente seguro da placa Sul-Americana, o território brasileiro é cortado por dezenas de falhas, sempre sujeitas a tremores. São elas que provocam os sismos na Região Nordeste. São elas, também, a provável causa do abalo que, em dezembro de 2007, derrubou 76 casas no município mineiro de Caraibas e matou uma criança - a primeira vítima brasileira de um terremoto. O tremor não foi dos maiores - atingiu magnitude pouco maior que 4,9 segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (INPE) -, mas a precariedade das construções não resistiu ao sacolejo.
O Brasil recebe, também, os reflexos de tremores que ocorrem nas bordas da placa Sul-Americana, principalmente do lado do oceano Pacífico. A placa de Nazca, que causa a elevação da cordilheira do Andes e cria os terremotos na região, mergulha sob a placa Sul-Americana bem abaixo do Acre - o que explica os tre¬mores ali. Eles só não causam danos maiores porque o foco é muito profundo, até 600 quilô¬metros abaixo da superfície. Mesmo regiões nas áreas mais centrais da placa não estão livres de tremores. Na noite de 22 de abril de 2008, a população do litoral e da capital paulista e de outros estados das regiões Sul e Sudeste saltaram das poltronas com um inusitado abalo. O chão tremeu por menos de cinco segundos, mas o abalo não causou mais do que susto e algumas rachaduras em poucas casas. O epicentro estava a mais de 200 quilômetros da costa brasileira e o foco do tremor, a 10 quilômetros de profundidade, na borda leste da placa Sul-Americana, no oceano Atlântico. Os geólogos não sabem o que causou o sismo de São Vicente (referência à cidade litorânea paulista). O que eles sabem é que, por mais rígidas que pare¬çam, as placas são instáveis e suscetíveis a movimentos inesperados.

11 GRANDES TERREMOTOS NO MUNDO

Por ordem de grandeza, segundo os pontos da escala Richter
9,5 -1960 Chile l Mais de l, 6 mil mortos, 3 mil feridos, 2 milhões de desabrigados. O tsunami gerado pelo abalo matou também no Havaí, no Japão e nas Filipinas
9,3 - 1964 Golfo do Alasca | O tsunami matou 113 pessoas e o terremoto, 15, em várias cidades do Alasca
9,1 - 2004 Costa de Sumatra, Indonésia l Causou o maior número de mortos por um tsunami: 160 mil no Sudeste asiático è na África Oriental. As ondas atravessaram o Pacífico e o Atlântico
9,0 - 1952 Península de Kamchatka, Federação Russa l Tsunamis cruzaram o oceano Pacífico e atingiram.o Havaí. Não há registro oficial de mortes
9,0 – 2011 – Japão - O terremoto abalou prédios em Tóquio e fez com que as autoridades emitissem um alerta sobre tsunamis, há registro de que um tsunami de 10 metros de altura arrasou a costa, noroeste do país, deslocou o país quatro metros para o leste
8,8 - 1906 Costa do Equador - O tsunami matou entre 500 e l, 5 mil pessoas no Equador e na Colômbia e atingiu o Havaí, o Japão e a costa sudoeste dos Estados Unidos
8,7 - 1965 Ilhas Rat, Alasca l Apesar da intensidade, provocou apenas rachaduras em ruas e casas. Algumas ilhas foram atingidas por ondas de mais de 10 metros de altura
8,6 - 2005 Sumatra, Indonésia 11,3 mil mortos e cerca de 400 feridos em Sumatra e no Sri Lanka
8,6 - 1950 Nordeste da índia, Tibete l A maior parte das vítimas estava no Tibete: 780 mortos pelos abalos e deslizamentos
8,6 - 1957 Ilhas Aleutas, Alasca l Destruiu casas e rodovias. Vulcões entraram em erupção. Apesar dos tsunamis de 15 metros de altura, não há registro de vítimas
8,5 - 2007 Sumatra. Indonésia l 25 mortos. 160 feridos. 52 mil edifícios destruídos ou comprometidos

Para saber mais leia: Atualidades vestibulares 2009 – Ed. Abril

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